sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Situação de presídio no estado do Espírito Santo

O programa de hoje fala sobre a realidade dos presídios capixabas; leia relato da repórter Thatiana Brasil
Thatiana Brasil, especial para o R7



Quando fui chamada para fazer o Repórter Record sobre os presídios capixabas, confesso que fiquei com um frio na barriga. Sabia que estaria frente a frente com uma triste realidade. Mas, ainda assim, pelo que já havia estudado sobre o assunto, achei que estava preparada para ver de perto o estado de abandono em que se encontrava o sistema carcerário daquele lugar. Ledo engano.
Nada. Nenhuma matéria de jornal, pesquisa na internet ou relatório do Ministério Público poderia retratar com tanta exatidão o que vi e senti durante a reportagem. Neste caso, sem o poder da imagem e do som, fica complicado transmitir com fidelidade e emoção a mensagem ao leitor. Estava tudo ali, ao vivo e a cores!

Minha primeira gravação na cidade de Vitória foi no Departamento de Polícia de Vila Velha. Só ali pude entender o que me esperava. Jamais imaginei ver algo tão degradante. Como alguém, em sã consciência, poderia imaginar que um dia iria se deparar com uma cela projetada para 36 detentos abrigando mais de 300 homens? Parece um filme de terror... é inacreditável! Homens amontoados. Presos que, sequer, conseguem ficar em pé ao mesmo tempo. Seres humanos que defecam na mesma marmita usada para as refeições diárias! Quando entrei neste lugar senti, logo de cara, o olhar de desespero de quem estava ali e ao mesmo tempo a revolta e a frieza dos criminosos. Senti medo. Tive a nítida sensação de que, a qualquer momento, um deles poderia surtar. Mas, precisava seguir em frente. Deixei a emoção de lado e coloquei o profissionalismo em primeiro lugar. A intrusa ali era eu! Era preciso estar preparada para uma reação violenta dos presos. Afinal, o que esperar de um homem em condições tão desumanas? Qual o valor da vida para quem vive assim?
A sensação que tive é que os detentos não tinham nada a perder. Ali, quem entra é ameaçado de morte. Os presos não suportam mais tanta gente. Criminosos chegam a todo o momento e para conseguir colocá-los lá dentro, só a base de tiro... muito tiro! Eles atiram e os presos se afastam. Só assim a porta da cela pode ser aberta. É a maneira encontrada pelos policiais para driblar a resistência dos detentos. As marcas podem ser vistas na parede. É impressionante!

O que parecia trágico ficava ainda pior com o passar do tempo. No presídio de Novo Horizonte tivemos acesso a contêineres usados como celas. Fomos a única equipe de TV a mostrar o que restou das celas metálicas. A unidade já tinha sido interditada, mas só foi desativada com a descoberta da nossa presença no Estado. As denúncias deixaram o governo em alerta. Só entramos nos presídios com a ajuda de fontes preciosas.
A preocupação da equipe em ser fiel aos acontecimentos e ao cenário deplorável das unidades sempre foi motivante. No Presídio de Novo Horizonte, precisamos ser fortes... Ficamos indiferentes ao cheiro repugnante de fezes, urina, rato morto. Entramos nas celas metálicas sem nos preocupar com a falta de higiene e o risco de leptospirose.
Sabíamos que era imprescindível levar ao telespectador a realidade nua e crua do sistema. Só assim nos transportaríamos para o outro lado da tela. Queríamos ser os olhos de quem assistisse a uma reportagem como esta.
Também foi esse o sentimento quando entrevistei a mãe de um ex- presidiário. O que dizer de uma mulher que relata a dor de perder um filho esquartejado? Como conseguir convencê-la da importância de seu depoimento? Nessa hora precisei conversar com ela. Mantive a minha posição de jornalista e consegui chegar até ela entendendo o sentimento de mãe - que também sou.
Tocar na ferida não é fácil. Nossa entrevistada pensou em desistir. Em nenhum momento forcei aquela mãe que perdeu seu único filho a falar. Mas, mostrei para ela que outras mulheres passavam pelo mesmo sofrimento. Só quem estivesse sentido isso na pele, poderia transmitir uma mensagem de indignação, de mudança.
Peguei o avião de volta com a certeza de que algo precisa ser feito. O sistema prisional deve ser preparado para recuperar essas pessoas. Presos que precisam, sim, pagar pelos crimes que cometeram. Mas, o que fazem com eles também não é crime? Não é ilegal? Qual o futuro desses detentos? Qual a possibilidade de recuperação dessas pessoas?
Desembarquei em São Paulo com uma certeza: responder a violência com mais violência nos leva a um caminho sem volta. Durante todos os dias em que estive no Estado do Espírito Santo, o tratamento desumano dado aos detentos não saiu da minha cabeça. Durante vários dias, dormi pensando nisso. Tratar presos como animais só estimulam sentimentos de ódio e vingança. A aparente inércia das autoridades competentes pode custar caro. A eles, a mim e a você.


Fonte: http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/reporter-record-saiba-mais-sobre-os-bastidores-do-programa-desta-segunda-feira-20100308-1.html


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Reportagem faz um relato assustador sobre o dia-a-dia dos presos no Estado
Do R7

A equipe do Repórter Record passou dois meses no Espírito Santo para investigar como funciona o sistema penitenciário do Estado. O resultado foi presos maus tratados e doentes, celas superlotadas e condenados trancafiados em contêineres, tratados como cargas.
Na delegacia de Argolas, no município de Vila Velha, na grande Vitória, a equipe encontrou um caos total. Presos urinando nos corredores e ligações clandestinas de eletricidade. No mesmo município, 300 presos convivem num espaço onde cabem apenas 30. Homens acusados por crimes graves são misturados com outros que cometeram pequenos delitos.
Nas cadeias de Cariacica, a 20 km da capital Vitória, homens e mulheres vivem em contêineres. Eles não têm banheiro, água, comida e espaço. Quando chega o verão, a situação fica ainda pior. As paredes metálicas esquentam e queimam os detentos. E se não bastasse, os presos precisam dividir as celas improvisadas com um outro tipo de morador: os ratos.

O Repórter Record também encontrou criminosos encarcerados dentro de microônibus em um estacionamento da polícia. Na hora de dormir, precisam entrar em acordo, pois falta lugar para todos deitarem. Banheiro, só a cada 12 horas. O caos também domina a Casa de Custódia de Viana e nos presídios em contêineres em Novo Horizonte, na Serra, a 30 km de Vitória. Em 2009, quase 200 pessoas foram assassinadas na cidade de Serra.
Ângelo Roncalli, secretário de Justiça do Espírito Santo, diz que novos presídios estão sendo construídos. Nos últimos anos, 14 unidades foram entregues e duas estão em construção. Mas a população carcerária cresce em um ritmo rápido. Nos últimos 12 anos, o número de presidiários cresceu 300% no Estado.

Fonte: http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/reporter-record-mostra-a-situacao-caotica-dos-presidios-no-es-20100309.html

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Antes de produzir o programa sobre os presídios do Espírito Santo, costumava dizer que, durante meus nove anos de carreira no jornalismo policial, havia visto duas situações das quais não queria ter testemunhado, por saber que para sempre me lembraria daquelas imagens chocantes. Agora, digo que coleciono três lembranças pesadas nos registros da minha memória.
É inesquecível e revoltante ver um ser humano ser tratado como lixo. É pesado ver ratos disputando a mesma comida que pessoas. É triste saber que por trás de certas muralhas há verdadeiros campos de concentração, com presos dormindo em escombros, sem luz, sem água, sem nenhuma perspectiva e muitas vezes desejando até a morte.

Foi difícil não se envolver. Nos 15 dias em que passei no Estado, em três deles chorei à noite, ao colocar minha cabeça no travesseiro. Nunca havia chorado após um dia de trabalho. Nunca também havia imaginado que veria 300 homens dividindo um único banheiro, em um espaço onde cabem 36 pessoas! Nunca havia imaginado que veria presos mantidos 24 horas por dia dentro de um microônibus! Ou que veria locais onde contêineres de ferro servem de celas em um Estado onde faz quase 40ºC na sombra! Sem dúvida que os criminosos precisam pagar pelos crimes que cometeram. A justiça deve ser feita. Mas, deve ser executada como manda a lei. O que vi no Espírito Santo é uma situação antagônica: um Estado que, por vezes, comete crimes para punir criminosos.
Produzir este programa foi um fardo. Posso dizer que foi o melhor material trazido por mim desde a minha chegada à Record. Não foi fácil. Passei por momentos de grande estresse. Pessoas, que não tinham interesse na divulgação das imagens que conseguimos, tentaram maquiar situações, impedir meu trabalho e me intimidar de várias formas.

Meu maior prazer foi dividir com o público um pouco desta dura realidade. Espero que o Repórter Record sirva de instrumento para melhorar a situação carcerária em todo país. Afinal, não podemos culpar apenas o Espírito Santo. Autoridades pediram a intervenção federal deste Estado ao constatar o modo desumano como vivem os presos em determinadas cadeias de lá. Mas, se estas pessoas fossem nas unidades prisionais de todo Brasil, possivelmente pediriam intervenção federal em boa parte delas.

Fonte: http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/reporter-record-saiba-mais-sobre-os-bastidores-do-programa-desta-segunda-feira-20100308-1.html
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